12/04/2008

Ira e Santidade: ordem no Caos

“O vinho não embriaga tanto ao homem como o primeiro movimento da ira, pois ele cega o entendimento sem deixar luz para a razão”. (Alemán, Mateo; em "Guzmán de Alfarache")

“Ira no lar é como o verme numa planta”. (Textos judaicos, em "Máxima hassídica")

“O varão mais forte é aquele que sabe dominar-se na hora da ira” (Maomé)

A ira é um forte sentimento de raiva, rancor, ódio e indignação, um conjunto de emoções inclinadas à violência , em diversas situações levando a um desejo de vingança. “Ira é um sentimento mental e emotivo de conflito com o mundo externo ou consigo mesmo, que controlamos pouco e manejamos pior ainda, deixando-nos fora de nossas ações.” (Wikipedia). A ira sempre foi objeto de estudo e análise do conhecimento humano em todas as suas facetas, seja, por exemplo, nas religiões, na Filosofia ou na Ciência. Pensadores como Aristóteles e Sêneca buscaram entender o comportamento irascível do homem, sua natureza explosiva, violenta e efêmera. Considerada pela Igreja Católica como um dos sete pecados capitais, isto é, segundo ela, aqueles que a praticassem seriam merecedores de condenação ao inferno, contudo, na Palavra de Deus é paradoxalmente apresentada tanto como um sentimento humano quanto um componente da natureza de Deus. Como pode ser isso? Como a Palavra Deus pode afirmar que algo tão negativo faz parte do caráter divino?

A Biblia afirma que há dois tipos de ira: uma, derivada da carne, do caráter pecaminoso encontrado na humanidade, e outra encontrada na natureza Santa de Deus. Cabe ressaltar que no Novo Testamento duas palavras gregas são utilizadas para significar este sentimento: orge e thumos. A primeira indica uma disposição mental mais branda, contida, porém duradoura, normalmente vinculada ao desejo de tomar vingança no futuro, muitas vezes definida como raiva ou indignação. Ela aparece nas Escrituras tanto para descrever a ira do homem (Ef 4:31; Cl3:8) como a de Deus (Mt 3:7; Rm 1:18, 9:22).

Por outro lado, thumos indica uma condição mais agitada de sentimentos – cólera ou furor - uma explosão repentina de ira decorrente de indignação interior, mas que brevemente se apaga. É característico, logo, do que se inflama depressa e rapidamente cessa. Este termo é encontrado 18 vezes no NT, sendo que em 8 das aparições há relação com a ira divina, constando uma delas em Rm 2:8, na qual aparece os dois termos juntos – “ira [thumos] e indignação [orge]” - e 7 delas no livro de Apocalipse (Ap 14:10,19; 15:1,7; 16:1,19; 19:15). As outras 10 referências restantes são relativas ao comportamento pecaminoso da humanidade ou de Satanás (Lc 4:28; At 19:28; 2Co 12:20; Gl 5:20; Ef 4:31; Cl 3:8; Hb 11:27; Ap 12:12; 14:8; 18:3 ).

Observa-se então que a ira explosiva de Deus é citada sete vezes em Apocalipse sempre relacionada à cólera do julgamento divino no Dia do Senhor, quando os adoradores da Besta beberão o “vinho da cólera de Deus”, no dia da colheita das uvas (nações) para o “lagar da ira de Deus”, em que serão derramadas as “sete taças da cólera de Deus”, onde o Verbo de Deus (Jesus) pisará esmagando seus inimigos:

“E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava montado nele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga a peleja com justiça. (...) Da sua boca saía uma espada afiada, para ferir com ela as nações; ele as regerá com vara de ferro; e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso.” (Ap 19:11,15)






Seria uma simples coincidência o fato de que o termo "thumos" é citado sete vezes (número que significa perfeição) em Apocalipse? Ou que, em Romanos, no capítulo 2 e versículo 8, seja a única vez que se faz referência além do Livro das Revelações, venha acompanhado do termo "orge"? Em outras palavras, que a ira explosiva e repentina a ser revelada no Dia do Juízo, apareça juntamente com a indignação divina contida porém permanente? Ora, há uma verdade espiritual escondida neste versículo, a qual é a chave para se entender a ira divina!




E tu, ó homem, que julgas os que fazem tais coisas, cuidas que, fazendo-as tu, escaparás ao juízo de Deus? Ou desprezas tu as riquezas da sua BENIGNIDADE, e PACIÊNCIA e LONGANIMIDADE, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, ENTESOURAS IRA para ti no DIA DA IRA e da MANIFESTAÇÃO DO JUIZO DE DEUS; o qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber: a vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção; mas a INDIGNAÇÃO [orge] e a IRA [thumos] aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniqüidade (...) (Rm 2:3-8)



A Ira de Deus é certa e iminente. A Palavra de Deus não mente, não se engana (Sl 119:160; Jo 17:17; Tt 1:2). Ninguém poderá se esquivar dela. Sua Palavra é que discerne a verdade da mentira (Hb 4:12). Nada pode escapar de Seu juízo (Jl 2:3). Não há um "jeitinho" brasileiro! O Eterno é onisciente e onipresente conhecendo toda intenção do coração humano e julgará a cada um conforme suas obras (Pv 20:27; 24:12; Ap 2:23). Portanto, todos os homens, sem exceção, comparecerão perante o Altíssimo para serem julgados segundo as intenções de seus corações:



E vi um grande trono branco e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiram a terra e o céu; e não foi achado lugar para eles. E vi os mortos, grandes e pequenos, em pé diante do trono; e abriram-se uns livros; e abriu-se outro livro, que é o da vida; e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras. O mar entregou os mortos que nele havia; e a morte e o hades entregaram os mortos que neles havia; e foram julgados, cada um segundo as suas obras. (Ap 20:11-13)




A Ira de Deus é contida pela Sua Paciência. O Senhor Jeová é "tardio em irar-se", misericordioso e compassivo (Ex 34:6; Nm 14:18; Sl 103:8). Longanimidade faz parte do caráter divino: Deus é paciente com Seus escolhidos (Lc 18:7) e Seus inimigos (Rm 9:22-23) contendo Sua Ira até que o tempo da plenitude dos gentios chegue ao fim e a salvação de Israel se cumpra pela segunda vinda de Cristo (Rm 11:25-26).


A Ira de Deus é reservada ao Pecado. É destinada àqueles que são desobedientes à verdade, que rejeitam o Evangelho, abraçando a iniqüidade e a perversão (Rm 1:16). Todo aquele que rejeitar a obra da Cruz já está julgado (Jo 3:18) e será condenado (Mc 16:16).



A Ira de Deus é também visível no presente. Embora ela somente manifestar-se-á no dia do Juízo e da vingança de nosso Deus, já pode ser vista no presente, no envio do engano de Satanás, cegando o entendimento dos incrédulos para que não percebessem a luz do evangelho (2 Co 4:4), a "operação do erro" (2 Ts 2:7-11). Porque, como a humanidade não reconheceu a Deus preferindo adorar a criatura do que o Criador, Ele entregou o pecador a uma disposição mental reprovável, para que cada vez mais se afunde na lama da promiscuidade e perversão:


Por isso Deus os entregou, nas concupiscências de seus corações, à imundícia, para serem os seus corpos desonrados entre si; pois trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador (...) Pelo que Deus os entregou a paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contrário à natureza; semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para como os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro. E assim como eles rejeitaram o conhecimento de Deus, Deus, por sua vez, os entregou a um sentimento depravado, para fazerem coisas que não convêm; estando cheios de toda a injustiça, malícia, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, dolo, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes ao pais; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, sem misericórdia; os quais, conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam. (Rm 1:24-32)

Portanto, a ira divina é um instrumento de Sua justiça para proteger Sua natureza santa. E, se há um caráter primordial de Deus, Sua Santidade é a principal. Deus é Santo (Is 6:3; Ap 4:8) e ele exige que todos aqueles que se aproximem Dele sejam também santos (1 Pe 1:15-16). Ser Santo, significa estar separado de todas as coisas, Ele é o Criador e Sua própria natureza o torna diferente de Suas criaturas: "A quem, pois, me comparareis para que eu lhe seja igual? -- diz o Santo" (Is 40:25). Ele considera toda as nações "como um pingo que cai de um balde e como um grão de pó na balança" (Is 40:15), ou seja, nada são perante Sua majestade e glória. É Ele que concede ou retira a vida (1 Sm 2:6). Por isso todo homem deve temê-lo e adorá-lo (Sl 33:8; Sl 150:6; Jr 32:39). Como disse Habacuque, "Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar" (Hc 1:13a). Deus é puro, sem mácula. Nele não há impureza. O Senhor abomina o pecado e odeia a todos que praticam a iniquidade (Sl 5:4-5).


O homem vil, o homem iníquo, anda com a perversidade na boca, pisca os olhos, faz sinais com os pés, e acena com os dedos; perversidade há no seu coração; todo o tempo maquina o mal; anda semeando contendas. Pelo que a sua destruição virá repentinamente; subitamente será quebrantado, sem que haja cura.Há seis coisas que o Senhor detesta; sim, há sete que ele abomina: olhos altivos, língua mentirosa, e mãos que derramam sangue inocente; coração que maquina projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal; testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos. (Pv 6:12-19)

Contudo, para se compreender a importância de Sua ira é necessário entender a gravidade do pecado. Pecado é toda transgressão à lei divina (1 Jo 3:14). Assim quando Adão desobedeceu à ordem de Deus comendo do fruto da àrvore do conhecimento do Bem e do Mal, ele não só violou este mandamento como trouxe graves consequências à toda criação (Gn 3:16-18). Toda lei criada por Deus tem como objetivo trazer ordem ao universo. Por exemplo, a lei da gravidade é vital para manutenção da vida na Terra. É ela que retêm a matéria na superfície do planeta, sem ela, não haveria atmosfera respirável, mares, oceanos e todas as criaturas estariam vagando pelo espaço à deriva. Seria o triunfo do caos sobre a ordem.

Assim, toda lei natural ou espiritual tem como função essencial estabelecer a ordem na desordem. Pode se afirmar, então, que com o advento da queda do homem, surge o princípio da entropia, segunda lei da termodinâmica, que declara que sem interferência externa um determinado ambiente sempre tende a se desordenar com o passar do tempo. Quando deixamos uma pedra de gelo fora da geladeira, ele irá se derreter até se transformar em uma poça dágua.

O pecado, destarte, tirou a ordem do universo, substituindo-a por um princípio de caos. O pecado, semelhantemente a uma célula cancerígena, não se submete a ordem do organismo, se reproduzindo desordenadamente a seu bel prazer, contaminando e destruindo a vida. O pecado, em tão pouco tempo, se espalhou, criando raízes profundas no homem, tornando-se cada vez mais disseminado, comum. Em pouco tempo, a semente de Caim, o homicida de seu irmão, assassinava por motivos banais, a saber, "porque ele me feriu" ou "porque ele me pisou" (Gn 4:23b). A iniquidade cresceu sobremaneira levando Deus a castigar a humanidade através do dilúvio (Gn 6:5-7). Todavia, mesmo demonstrando Sua graça a Noé, poupando-o da morte certa pela salvação da Arca, o problema do pecado não foi eliminado. Pois, tão logo Noé saiu da mesma, plantou uma vinha e se embebedou, cometendo pecado perante o Senhor (Gn 9:20-27).

De forma similar, procurou Deus encontrar um justo na terra (Sl 14:2-3), não o achou mesmo dentre todos os heróis da fé que escolheu: Abraão, Jacó, Moisés, Davi... Todos eles (assim como toda a humanidade) pecaram diante de Deus e careciam de Sua glória (Rm 3:23). Por conseguinte, Deus, Ele mesmo, mediante Seu braço forte desceu à terra, fazendo-se carne para através de Sua obra trazer justiça e juízo a terra, devolvendo a ordem à criação (Is 59:16; Jr 33:15; Jo 1:14). Ele é o Verbo de Deus, Cristo Jesus. Assim como, no princípio, por intermédio Dele deu ordem ao caos - por intermédio de Sua Palavra disse "Haja luz" (Gn 1:3) - agora, pela consumação da obra na Cruz, devolve ordem à desordem do pecado! Sendo desta maneira, a ira de Deus manifestada no Calvário, na morte do Filho de Deus, a consumação da salvação não só do homem, todavia de toda a criação, a libertação do poder da morte advinda pelo pecado:


Porque a criação aguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos de Deus. Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que também a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora; e não só ela, mas até nós, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, aguardando a nossa adoração, a saber, a redenção do nosso corpo. (Rm 8:19-23)

Todo o universo está esperando a plenitude da Salvação em Cristo, destinada a todos aqueles que crêem em Seu nome! Todo aquele que ouve a voz do Senhor e o obedece, o segue, é Sua ovelha (Jo 10:27), é similar ao contrutor que edifica sua casa na pedra (Mt 7:24-27). Ora, esta é a Rocha de nossa Salvação, nosso libertador. Rocha significa segurança, firmeza, constância e ordem. A areia é o inverso: denota desconfiança, instabilidade, inconstância e caos. A areia é formada pela decomposição da rocha pela erosão, por ação do vento e da água. A areia é a pedra fragmentada, em processo de desordem. Dessa forma, pode-se inferir que todo aquele que não se firma em Cristo, está edificando sua vida em desordem e, consequentemente destinado à destruição!

Agora, nós, crentes, mediante Sua morte, estamos livres da ira vindoura (Rm 5:9; 1Ts 1:10). As "tempestades" e tribulações reservadas aos ímpios não nos alcançarão, pois, nossa fé está edificada em Cristo, a Pedra Angular (1Pe 2:4-5). Por isso declara o Senhor: "Pois que tanto me amou, eu o livrarei; pô-lo-ei num alto retiro, porque ele conhece o meu nome" (Sl 91:14). Esta é a promessa para todos aqueles que conhecem Seu nome, que não pereçam na ira divina mas estejam em segurança firmados na Rocha! Afinal, ter a vida eterna, conforme Cristo afirma, simplesmente, não significa conhecer a Deus?

Conclui-se que a ira de Deus é vital para a própria existência do universo. Sem ela, sem as intervenções divinas, toda a criação seria dizimada pelo processo de entropia iniciado pelo pecado original. A ira divina é um instrumento do Senhor para executar sua justiça e juízo, defendendo seu caráter santo. E foi pela vida, morte e ressurreição de Seu filho Jesus, que a Ira de Deus foi consumada, restaurando a ordem divina à criação, destinando pela predestinação alguns, aqueles que crêem, à salvação, e outros, aqueles que rejeitam a verdade, à perdição.

2 comentários:

pedro aurelio disse...

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pedro aurelio disse...

paz do sr , muito obrigada por me ter adicionado também aja fiz o mesmo .